As unhas não são apenas um detalhe estético - são um espelho da sua saúde
Se você notou que suas unhas ficaram amareladas, espessadas, ou começaram a se soltar do leito, não assume automaticamente que é fungo. Muitas pessoas passam meses tratando algo que não é fungo - e acabam piorando a situação. Entre as causas mais comuns de alterações nas unhas, duas se destacam por serem confundidas entre si: infecções fúngicas e alterações psoriáticas. Apesar de parecerem parecidas, são condições totalmente diferentes, com causas, evoluções e tratamentos opostos.
Como saber se é fungo ou psoríase?
Infecções fúngicas nas unhas, chamadas de onicomicose, começam quase sempre por baixo da ponta da unha. Um pequeno ponto branco ou amarelo aparece, e aos poucos, a unha vai escurecendo, ficando mais grossa, quebradiça e, em muitos casos, com um cheiro desagradável. Esse cheiro é um sinal quase exclusivo de fungo - presente em cerca de 40% dos casos, mas nunca na psoríase.
Já a psoríase nas unhas não começa por baixo da ponta. Ela surge de forma mais súbita e geralmente afeta várias unhas ao mesmo tempo. Um dos sinais mais característicos é o pitting: pequenos buracos na superfície da unha, como se tivessem sido feitos por uma agulha. Isso acontece em cerca de 70% dos casos de psoríase ungueal. Outro sinal importante é a mancha salmão - uma mancha vermelha-amarelada sob a unha, chamada de “salmon patch”. Também é comum ver acumulação de pele branca e esfarelada por baixo da unha, chamada de hiperqueratose subungueal.
Um estudo da Cleveland Clinic em 2023 mostrou que unhas com psoríase costumam ficar entre 2 e 3 mm de espessura, enquanto as infecções fúngicas podem ultrapassar 5 mm. Isso não é algo que você mede em casa, mas é um detalhe que dermatologistas usam para diferenciar os casos.
Quem tem psoríase na pele, quase sempre tem na unha
Se você já tem psoríase na pele - nas pernas, cotovelos, couro cabeludo - a chance de desenvolver alterações nas unhas é de 80% a 90% ao longo da vida. Muitas vezes, as mudanças nas unhas aparecem 10 a 15 anos depois dos primeiros sinais na pele. Mas isso não quer dizer que só quem tem psoríase na pele pode ter psoríase nas unhas. Em 5% dos casos, a unha é a primeira e única manifestação da doença.
Já a infecção fúngica não escolhe ninguém. Qualquer pessoa pode pegar, especialmente se usa calçado fechado por muito tempo, vai à academia, à piscina ou ao salão de beleza sem cuidar da higiene. O fungo mais comum é o Trichophyton rubrum, responsável por 80% a 90% dos casos. Ele se espalha facilmente em ambientes úmidos e quentes.
Por que a confusão é tão comum?
Porque muitos sinais se sobrepõem. Ambas as condições podem causar unhas amareladas, separação da unha do leito (onicólise) e fragilidade. Um estudo da Dermatology Online Journal em 2021 mostrou que 68% dos casos de psoríase ungueal tinham coloração amarela, parecida com a de fungo. Isso leva a erros de diagnóstico em até 40% dos casos, segundo o Journal of Cutaneous Medicine and Surgery.
Um paciente pode ir ao dermatologista com unhas amareladas e espessadas. O médico, sem fazer exames, diz: “É fungo”. Ele compra um esmalte antifúngico, aplica por meses, e nada muda. Ou pior: a unha piora. Porque, se for psoríase, antifúngicos não fazem nada. E se o médico errar e prescrever corticóides tópicos - que são usados na psoríase - para um caso de fungo, a infecção pode se espalhar ainda mais.
Um relato do fórum MyPsoriasisTeam, em março de 2023, resume bem isso: “Depois de 8 meses usando antifúngicos que não funcionaram, minhas unhas pioraram e comecei a ter dor por causa da separação.”
Como se faz o diagnóstico certo?
Um exame visual não basta. O padrão-ouro é uma combinação de três passos:
- Exame clínico detalhado: o dermatologista olha por pitting, manchas salmão, hiperqueratose - sinais que só a psoríase tem.
- Exame de KOH: um pequeno pedaço da unha é raspado, colocado em hidróxido de potássio e examinado ao microscópio. Se vir fungos, é confirmado. Esse exame tem 70% a 80% de precisão.
- Cultura fúngica: se o KOH der negativo, mas a suspeita persiste, a amostra é enviada para cultura. Ele é mais preciso (95% de especificidade), mas demora semanas para dar resultado.
Em casos difíceis, pode-se usar a coloração PAS - que destaca o fungo em tecidos - com 90% de sensibilidade. Mas o mais importante é saber: se houver pitting, é quase sempre psoríase. Se houver cheiro ruim, é quase sempre fungo.
Como é o tratamento?
Os tratamentos são completamente diferentes - e isso faz toda a diferença.
Para fungos, o tratamento mais eficaz é o terbinafina por via oral, tomada por 12 semanas. Em 78% dos casos, o fungo some completamente, conforme comprovado por culturas. Esmaltes tópicos como efinaconazol (Jublia) também ajudam, mas levam de 9 a 12 meses para ver resultado, porque a unha cresce devagar - apenas 0,1 mm por dia.
Para psoríase, o tratamento não é antifúngico. É imunológico. Injeções de biológicos como secukinumab (Cosentyx) ou ixekizumab têm mostrado melhora em 65% dos pacientes após 24 semanas. Também se usam corticoides injetáveis diretamente na unha, que podem mostrar efeito em 8 a 12 semanas. Em casos leves, cremes com vitamina D ou corticoides tópicos ajudam, mas raramente resolvem sozinhos.
Um ponto crucial: se você tem psoríase nas unhas e também tem fungo - o que acontece em 4,6% a 30% dos casos - o tratamento precisa ser combinado. Tratar só o fungo sem controlar a psoríase é como tapar o buraco com o dedo: a unha continua se desgastando por dentro.
Como cuidar em casa?
Se for fungo: mantenha as unhas secas. A umidade acima de 40% favorece o crescimento do fungo. Use meias de algodão, troque-as se suarem, e evite calçados fechados por longos períodos. Desinfete chinelos e cortadores de unha. Nunca use as mesmas lixas para unhas saudáveis e afetadas.
Se for psoríase: evite traumas. Cortar muito perto da cutícula, morder as unhas, ou até usar esmaltes com acetona podem piorar. Use cremes hidratantes nas unhas e cutículas diariamente. A psoríase é desencadeada por estresse e lesões - o chamado fenômeno de Koebner. Um simples arranhão na unha pode gerar uma nova lesão.
Recomenda-se tirar uma foto mensal das unhas, com a mesma luz e ângulo. Isso ajuda você e seu médico a ver se está melhorando - ou piorando - com o tratamento.
O que está mudando na medicina?
A tecnologia está ajudando a acertar mais. Em 2023, um estudo do Mayo Clinic usou microscopia de reflexão confocal - uma espécie de “ultrassom da pele” - e conseguiu diferenciar psoríase de fungo com 92% de precisão, sem cortar a unha.
Também está surgindo o diagnóstico por microbioma: analisar quais bactérias e fungos vivem na unha. Estudos da Mount Sinai mostram que, na psoríase, há mais Staphylococcus e menos Cutibacterium. Já na onicomicose, o DNA do Trichophyton é abundante. Esses testes ainda não são comuns, mas já estão em fase de validação.
Em janeiro de 2024, a FDA aprovou um novo antibiótico tópico, o Xepi, para infecções bacterianas que surgem em unhas com psoríase - algo que antes era tratado com corticoides, o que piorava o problema.
Por que isso importa economicamente?
Erro de diagnóstico não é só um problema de saúde - é um problema de dinheiro. Nos Estados Unidos, estima-se que 150 mil casos por ano são tratados errado, gerando US$ 850 milhões em gastos desnecessários. Exames de KOH custam entre US$ 15 e US$ 25. A cultura fúngica, US$ 75 a US$ 125. Biológicos como Cosentyx custam mais de US$ 4 bilhões por ano em vendas globais. Antifúngicos como Jublia faturaram US$ 412 milhões só em 2022.
Se você está gastando dinheiro e tempo com tratamentos que não funcionam, talvez não seja falta de esforço - seja falta de diagnóstico certo.
Quem deve procurar um dermatologista?
Procure um especialista se:
- As unhas mudaram de cor, espessura ou forma sem motivo aparente
- Os sintomas persistem após 3 meses de tratamento antifúngico
- Você tem psoríase na pele e notou mudanças nas unhas
- As unhas estão doloridas, com inchaço ao redor ou pus
- Três ou mais unhas estão afetadas ao mesmo tempo
Não espere até ficar pior. Unhas afetadas por psoríase ou fungo não melhoram sozinhas. E quanto mais tempo passa, mais difícil é recuperar a aparência normal.
Como posso saber se é fungo ou psoríase só olhando?
Olhar sozinho não é suficiente. Mas alguns sinais ajudam: pitting (buracos na unha) e manchas salmão são quase sempre psoríase. Cheiro ruim, espessamento severo e início pela ponta da unha são sinais fortes de fungo. Mesmo assim, 40% dos casos são diagnosticados errado só por visual. O exame de KOH é o primeiro passo necessário para confirmar.
Posso ter psoríase nas unhas sem ter na pele?
Sim. Embora 95% dos casos de psoríase ungueal ocorram em pessoas que já têm psoríase na pele, em até 5% dos casos, a unha é a única manifestação da doença. Isso pode atrasar o diagnóstico por anos, porque o médico não associa as alterações das unhas a uma doença sistêmica.
Antifúngicos funcionam na psoríase?
Não. Antifúngicos tratam fungos, não inflamação autoimune. Se você tem psoríase e usa antifúngicos, pode perder meses - e piorar a unha - sem nenhum benefício. Em alguns casos, o uso indevido de corticoides em fungos também piora a infecção.
Quanto tempo leva para a unha voltar ao normal?
Depende da causa. Para fungo, com tratamento correto, a unha nova cresce em 6 a 12 meses (unhas dos pés demoram mais). Para psoríase, com biológicos, a melhora começa em 2 a 3 meses, mas pode levar 6 meses para a unha totalmente nova crescer e substituir a afetada. Pacientes com psoríase geralmente precisam de tratamento contínuo para evitar recidivas.
Existe cura para psoríase nas unhas?
Não há cura definitiva, mas há controle eficaz. Com tratamentos como biológicos, 65% dos pacientes têm melhora significativa. A meta não é eliminar a doença, mas controlá-la para que as unhas voltem a parecer normais e não causem dor ou embaraço. Muitos pacientes vivem anos sem crises com tratamento adequado.
Posso usar esmalte se tiver psoríase ou fungo?
Com cuidado. Esmaltes comuns podem reter umidade e piorar fungos. Para psoríase, esmaltes não prejudicam, mas esmaltes medicados ou à base de ureia podem ajudar a amaciar a pele sob a unha. Se tiver fungo, evite esmaltes por meses - ou use apenas esmaltes antifúngicos prescritos. Nunca use o mesmo esmalte ou lixa em unhas saudáveis e afetadas.
Saude